O Globo / Morar Bem – maio 2005

              Construção Indiana observa a natureza para garantir mais harmonia ao morador

O projeto deve ser orientado pelos quatro pontos cardeais, com a entrada da casa voltada para o leste. A construção tem que ser simétrica. E precisa receber muita luz natural. Tudo isso para que o imóvel esteja em harmonia com as forças da natureza, garantindo mais paz e saúde a quem mora no imóvel.
Pode parecer uma viagem – há quem diga que é – mas esses são alguns dos preceitos de uma ciência milenar Indiana; a arquitetura Védica, uma espécie de feng shui da construção, que está engatinhando no Brasil. Por enquanto, há uma casa construída no Recife, outra em Campinas e, este mês, começa a sair do chão a primeira obra védica do Rio, num condomínio na Barra da Tijuca.

- Faço meditação há 13 anos e, quando pensei em construir uma casa, optei por seguir também, na arquitetura a filosofia Védica. O interesse é trazer bons fluidos e mais equilíbrio para a família – conta o executivo Marcelo Geraldi, que teve o auxílio de um arquiteto do Rio, outro do Recife e um terceiro da Holanda para desenvolver o projeto de sua casa, que começa a ser construída nos próximos dias na Barra.

                                                                 Exigências podem encarecer projeto

Contratado para dar uma cara contemporânea ao projeto de arquitetura Indiana da casa de Geraldi, o arquiteto carioca Miguel Pinto Guimarães, admite não entender alguma exigências – “são como dogmas”, “não se discute” – mas acredita que as regras levam a um bom resultado:
- O conceito da arquitetura Védica traz algumas exigências que só se resolvem através de um bom projeto. No fim, se tem uma casa mais ventilada e com muita luz.

Mas também traz problemas admite:

- O projeto tem alguns bugs por conta de exigências, por exemplo, de que a circulação se faça em determinada direção. A instalação elétrica vai sair mais cara por isso. E o lay out do banheiro também não ficou bonito, já que se tem que escovar os dentes, usar o vaso e tomar banho voltado para o Norte.
É o que ponto de partida de um projeto Védico é a marcação dos pontos cardeais no terreno. E é dentro deste espaço, chamado de Vastu, que será executado o projeto, sendo o centro dessa área o ponto de concentração de energia (o Brahmasthan).

- Sobre esse ponto não se deve andar, por isso se constrói aí uma fonte ou jardim – explica Klebér Tani, coordenador da Estação da Mente, na Lagoa, que dá consultoria sobre arquitetura Védica.
A orientação dos cômodos e das atividades neles realizadas, aliás, estão sempre alinhadas a pontos cardeais. E não é à toa, pois há embasamento científico, diz Klebér:

- Estudos na área de neurociência demonstram que os neurônios atuam de forma diferente de acordo com a direção em que estamos olhando, influenciando o funcionamento do corpo e da mente. Esse preceito é usado na construção da casa para garantir equilíbrio, aliando as funções biológicas aos cômodos específicos. Por exemplo, garantindo que se durma bem no quarto.

                                                                  É possível adaptar o imóvel já construído

Figurinhas carimbadas quando se fala de arquitetura Védica no Brasil, o estudioso Jaime Torres e sua mulher, a arquiteta Berenice Brendler, moradores de Recife, explicam que o objetivo é projetar casas em que a inteligência individual dos moradores esteja em sintonia com a inteligência cósmica. Por isso, acentua Torres, a observância das leis naturais:

- Acreditamos que o movimento do sol influencia de forma diferente os cômodos da casa. O leste, onde o astro nasce, tem uma força motora, por isso a entrada deve estar aí. Já os cômodos em direção ao Oeste, onde o sol se põe, é melhor para os quartos, por ter uma energia mais tranqüila – explica Torres, que está dando consultoria para a construção de um condomínio Védico em Vargem Grande.

Torres ressalta que é possível adaptar um imóvel já construído à arquitetura Védica:
- A mudança de uma porta de lugar ou a transferência de alguma atividade de um cômodo para outro podem ajudar a melhorar o equilíbrio da casa.

Fonte: Jornal Globo – suplemento “Morar Bem” – 1º de maio de 2005

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