Uma força contra a crise
A meditação ultrapassa a fronteira do esoterismo e vira ferramenta para enfrentar as pressões da vida cotidiana

Foto: MANOEL MARQUES
No pregão da Bovespa, o gerente de operações Martins:


"Grito sem me estressar"

O relógio marca 12h25. O diretor-geral dos laboratórios Valda, Hugues Ferté, pede licença e interrompe uma reunião com o presidente mundial da Canonne – grupo que produz as pastilhas Valda –, o francês Christian Canonne, e com consultores da empresa de auditoria Ernest & Young. Alega ter um compromisso inadiável às 12h30. Numa sala na sede da empresa, no Rio de Janeiro, 14 pessoas o esperam. O diretor entra em silêncio, afrouxa a gravata e liga o som. Uma música suave começa a tocar. Todos se sentam em grandes almofadas coloridas, descalços e de pernas cruzadas. Fecham os olhos, respiram fundo e meditam por meia hora. Há seis anos esse ritual se repete diariamente.

A exemplo do que acontece na Canonne, empresa que fatura US$ 20 milhões por ano, a meditação não é mais uma prática exclusiva dos templos budistas ou dos cursos de ioga. Seus benefícios, que por muitos anos foram usufruídos apenas por descolados, místicos e esotéricos, ultrapassaram a fronteira do mundo alternativo para melhorar a vida do executivo das grandes empresas, do funcionário público, do arquiteto e até daquele trabalhador que pega dois ônibus e metrô para chegar ao serviço às 7h. Também tornou-se uma ferramenta útil nos consultórios de terapia. A prática milenar que antecede a época de Buda é um precioso recurso da vida moderna na tentativa de reduzir o stress e aumentar a energia.

Instituída na Canone com o sisudo termo "reengenharia do processo decisório e criativo", o nome pouco importa. O objetivo é fazer com que as pessoas olhem para si e tenham equilíbrio emocional para trabalhar melhor.
"A meditação é uma alternativa simples para se atingir um alto grau de eficiência", diz o diretor Ferté.
Aos 57 anos, ele não usa terno, só trabalha de branco e rabo-de-cavalo. Praticante desde 1992, construiu um jardim suspenso na empresa e convidou seus 100 funcionários a fazer um curso. "Eles estão mais dispostos e os superiores satisfeitos", diz Ferté. O presidente mundial endossa: "Não tenho razões para me preocupar com a produtividade da fábrica no Brasil."

Na prática, como um exercício espiritual pode ajudar quem vive num ritmo alucinante?

De dentro do pregão da Bolsa de Valores de São Paulo, Sidney Martins, 43 anos, gerente de operações da Spinelly Corretora de valores, explica:

"Posso gritar no pregão, como todos, sem me estressar. Medito para suportar a tensão da Bolsa, me manter equilibrado e trabalhar melhor. Lido com R$ 12 milhões a R$ 30 milhões por dia e por isso mesmo preciso me manter calmo."

Operador da Bovespa desde 1969, Martins conheceu a meditação em 1986 e não largou mais.


"Antes de sair de casa me concentro e, sempre que posso, medito no próprio pregão. Fico em silêncio e imagino que estou numa floresta ou no mar", diz ele.

Avelino Gonçalves de Almeida Filho, diretor da administradora de investimentos Lógica de Mercado, faz meditação há sete meses.


"Agora com essa crise terrível estou surpreso comigo. Tenho enfrentado a tormenta com fair play."
Os benefícios da meditação têm sido investigados pela ciência. "Pesquisas científicas a tornaram mais aceita", diz Kleber Tani, presidente da Sociedade Internacional de Meditação no Rio de Janeiro. Segundo ele, estudos mostram que o nível de relaxamento durante a meditação é de seis a oito vezes maior do que durante o sono. Além disso, o dispêndio de oxigênio pode diminuir em até 60%, resultando em economia de energia. "Esse acúmulo de energia após 15 minutos de meditação deixa a pessoa mais desperta e alerta. Pronta para encarar mais um dia de trabalho", afirma ele, que ao longo de 17 anos formou seis mil meditadores. De acordo com Tani, a meditação diminui a produção de cortisol – identificado como um dos hormônios do stress. Quando veio ao Brasil no começo do ano, o cardiologista americano Dean Ornish recomendou dieta, oração e meditação para prevenir ataques do coração. O neurologista Nubor Facure, diretor do Instituto do Cérebro, em Campinas, interior de São Paulo, é tão adepto da prática que distribui para os pacientes folhetos que ensinam a meditar. "A doença é uma desarmonia da mente. Pode-se prevenir mentalmente resolvendo essas desarmonias."

"Pensam que estou dormindo, mas medito nas horas vagas das gravações" - Louise Cardoso, atriz

Se de fato isso acontece, o executivo Marcelo Geraldi, diretor de marketing da Farmoquímica, no Rio, encontrou o remédio certo. Ele é um dos propagadores da meditação no mundo dos negócios. "A pressão é massacrante e a meditação ajuda o executivo a ter mais clareza ao tomar decisões. E ainda melhora o relacionamento com as pessoas", garante. Sem almofadas ou incensos, Geraldi medita sentado em sua cadeira de trabalho diariamente antes do almoço. "Meditar 20 minutos por dia é um investimento barato que traz benefícios a médio prazo", afirma. O empresário Roberto Duailibi, o D da agência de propaganda DPZ, medita pelo menos uma vez por semana e diz que os exercícios são muito úteis em seu processo de criação. "Tenho a sensação de estar plenamente alerta, mesmo sem estar pensando em coisa nenhuma." Talvez essa mesma sensação tenha evitado que Marcos Novaes, diretor comercial da Áurea Seguradora de Garantias, se desgastasse demasiadamente ao fechar um contrato recente de US$15 milhões. "Se não fosse a meditação eu teria vivido uma estafa."